15 de outubro de 2017

Tia Marlene, Duda e Helley (ou ainda Carta Aberta em Defesa das Crianças e dos Professores)



Os dias 12 e 15 de outubro são marcados pelas comemorações do Dia das Crianças e do Professor, respectivamente. É um período em que fazer a ligação entre o nosso futuro (as crianças) e quem pode pavimentar as estradas para este futuro (os professores) é fácil e corriqueiro, mas infelizmente a minha sensação é que as felicitações para ambos são, muitas vezes, automáticas (não raramente hipócritas!) e/ou desprovidas de todas as reflexões que essas datas poderiam gerar.
A verdade é que são tempos difíceis para as crianças e os professores.
As crianças (e por extensão, os jovens) são vistos e medidos por pesos e medidas diferentes. Grupos contrários ao aborto (que se autointitulam "pró-vida") dizem que a vida do feto importa. Concordo plenamente, embora pense que a questão do aborto precisa ultrapassar as questões religiosas, principalmente, e ser discutida como questão de saúde pública . Mas e a vida das crianças que tem sua infância roubada, e que por terem trajetórias marcadas pela falta de tudo cometem erros? Bala nelas, simples assim. São maçãs podres. Ora, que esses, tão "a favor da vida",  fiquem indignados com cada criança passando fome, passando frio;  que fiquem indignados com cada criança que tem que trabalhar em idade em que tinha que estar brincando; com cada criança que sofre as mais diversas formas de abuso e abandono. Que não esqueçam que o milagre da vida não começa e termina no ventre da mãe, como se "nasceu, é problema da criança/da mãe/ seja lá de quem for".  Por quê se calam como se o problema não fosse também de vocês? Por quê fecham os olhos quando o problema não atinge as crianças que lhes são próximas? É problema de todos nós cada criança que passa por essa série de dificuldades. DE TODOS NÓS. Militar em prol da vida e não se importar se a dignidade da vida do próximo não são excludentes. Mas parcela considerável pode até não pensar dessa forma, mas age.
E muitas vezes tudo depende da origem de quem cometeu o erro - até mesmo quando o "erro" é nascer pobre/preto/favelado. E são essas as crianças e jovens que carregam o estigma de "pequenas suspeitas" até mesmo quando são vítimas. São essas as crianças que os jornais PRECISAM fazer reportagens para provar que elas eram "de bem". Mas até provarem que a criança ou o jovem não era envolvido com nada de errado, o estrago já foi feito, pois pessoas completamente despreocupadas com famílias despedaçadas por uma tragédia espalham toda série de boatos, "justificando" tal barbárie. E só piora quando a criança, de fato, encontrou no crime uma resposta àquilo que lhe faltou (e podemos colocar oportunidades, carinho, capital cultural ou econômico, ou tudo junto). Meus caros, crime maior é naturalizarmos que nossas crianças e nossos jovens mais vulneráveis morram aos montes, todo santo dia. Ato mais criminoso, mais cruel, mais "anti-cristão" é esse: matar as crianças com armas e/ou em vida, como seres descartáveis.
Quanto aos professores, esses muito em breve só merecerão queimar na fogueira da intolerância e serem julgados como culpados no "tribunal-dos-especialistas-em-educação-que- nunca-pisaram-numa-escola-pública". Em tempos estranhos como esses que estamos, os professores são inimigos públicos da mais alta periculosidade. Uma verdadeira ginástica ética e moral é feita para justificar os baixos salários, as salas lotadas de alunos (como se fossem depósitos de gente e cabendo ao professor o papel de carcereiro), uma perseguição ideológica (como se um professor fosse capaz de transformar cada sala de aula numa nova União Soviética), ou seja, uma completa desmoralização do profissional e do seu ofício. Gestores  juram de pés juntos que um profissional que atende turmas superlotadas, que é mal remunerado, que se desdobra dando aula em várias escolas e vive sofrendo abuso moral vai ser a saída para a educação do seu filho.
Isso para eles tem um único motivo: NÃO QUEREM QUE SEU FILHO PENSE. Que você se conforme que seu filho seja apenas alfabetizado e saiba fazer conta, que ele não sonhe, mais do que isso, que ele não se pergunte porque não pode sonhar. E a resposta para isso começa na escola. É a escola que ao mesmo tempo vai fortalecer os bons valores que você deu ao seu filho, mas é lá que ele aprenderá a lidar com o contraditório, a conviver com o diferente, é lá que ele vai aprender que o mundo é bem maior do que ele (e até mesmo você, mãe/pai/responsável) imagina. Estão querendo tirar isso do seu filho, e para tirar isso do seu filho, mexe com quem pode ajudá-lo: o professor. São estes gestores que pela frente desejam aos professores felicidades e coragem por sua resiliência, capaz de fazer brotar rosas em meio ao lixão, mas que por trás esfaqueiam sem piedade o professor (e um aviso aos professores que não veem isso: seu destino será o mesmo daqueles que "só pensam em fazer greve". Pensem nisso).
Este texto foi motivado não só pelas datas comemorativas, foi motivado também pela necessidade de lembrar de três mulheres que se foram este ano, que conheci em momentos distintos e que a perda de cada uma delas me fez derramar rios de lágrimas, mas que também me dão força diariamente para acreditar no poder transformador das crianças e dos professores. A primeira a dar adeus foi Marlene Prudenciana Braga, tia muito querida deste que vos escreve, incentivadora, confidente, inspiração que me ensinou, mesmo distante, que precisamos dar o máximo de amor ao ofício de professor. São em suas lições que busco ser o melhor professor que posso ser, em colocar todo o meu amor no que faço, mas que, por outro lado, me lembrou várias vezes que a luta por uma educação pública de qualidade se faz todo dia. A segunda foi Maria Eduarda Alves da Conceição, aluna cheia de vida que morreu de forma tão brutal, dentro do que considero meu santuário, A ESCOLA. Duda deixou uma lacuna no coração de toda uma comunidade, que infelizmente só é lembrada por episódios de violência. Jurei pela memória dela que farei de tudo para que a morte dela não tenha sido em vão, e isso tento fazer a todo momento, denunciando sempre que possível o esquecimento e o descaso que nossas crianças são submetidas, assim como no ato mais que necessário de acreditar no potencial transformador de cada criança. A última delas é Helley de Abreu Silva Batista, que deu sua vida para tentar salvar seus alunos de um incêndio, na cidade de Jarnaúba (MG). Sua coragem foi um exemplo do quanto muitos de nós estamos dispostos. No Brasil, não nos tornamos professores esperando rios de dinheiro, é mais um ato de coragem e amor ao próximo do que qualquer coisa. E coragem e amor, tenho certeza, não faltaram a Helley para sacrificar a própria vida por seus alunos.
À tia Marlene, Duda e Helley, estejam em paz e intercedam por nós.
Às crianças e aos professores, que dias melhores cheguem, mas enquanto eles não chegam, que tenhamos força. Aproveitem o dia de vocês, vocês merecem.

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