2 de janeiro de 2016

Um Fantasma Chamado Edivaldo



Tem horas que penso que eu acabo me expondo muito por aqui, pois como vocês já devem ter percebido, grande parte do conteúdo do blog é autobiográfico. E essa exposição, na maioria das vezes, beira ao ridículo, porque tem situações que acontecem comigo (cotidianamente!) , que, sinceramente, beiram ao fantasioso. Mas por outro lado é meio tarde para eu parar de contar alguns "causos" que acontecem comigo, ainda mais porque vejo que quem visita o blog vem justamente ler essas histórias (as estatísticas me dizem isso).
Pois bem: acho que nunca contei para vocês, mas minha casa sofre com a presença de um fantasma. E o fantasma tem nome, CPF, número de telefone e pelo que percebi, tem também nome sujo na praça.
Edivaldo é presença constante aqui em casa desde que nos mudamos para cá, há quase doze anos. Não sei se o trouxemos numa das gavetas dos armários ou se ele já estava por aqui, mas o que importa é que temos conhecimento da existência de Edivaldo desde que nos mudamos para cá. E ele é discreto. Não nos assusta, não fica arrastando correntes, não pega no nosso pé enquanto dormimos; só lembramos de Edivaldo quando o telefone toca.
Muitos procuram Edivaldo: bancos, principalmente. Eles ligam ou para cobrar algo dele ou para oferecer algum empréstimo com "prestações a perder de vista e juros baixos". É terrível. Só quando telefonam para cá procurando por Edivaldo que sentimos que estamos num "thriller" de terror, onde o vilão é uma figura que atende pelo nome de "operador de telemarketing".
Já tentamos de tudo para afastar Edivaldo e seus algozes de nós: tentamos falar educadamente que não há nenhum Edivaldo morando aqui, já xingamos quem ligava o procurando, deixamos de atender ligações, por medo de que estivessem procurando Edivaldo (medo nada, falta de paciência mesmo), até mesmo num ato desesperador, mas corajoso, trocamos de número de telefone (duas vezes!), para que esse filme B de terror acabasse. Mas tudo foi em vão.
E o sentimento que eu, particularmente, tenho por Edivaldo mudou ao longo do tempo: de ódio mortal a compreensão. Mas alto lá, compreender não é aceitar, ainda mais quando ligam para minha casa justamente em horas em que estou concentrado em algo ou mesmo tirando aquela soneca gostosa. Mas nesses anos todos convivendo com Edivaldo (ou algo parecido com isso), me pus no lugar dele diversas vezes, e isso me fez ficar um tanto resignado com a situação. Vejam bem, se eu, que faço um esforço monstruoso para não me endividar e fico pra morrer toda vez que bancos me ligam sedentos em me disponibilizar um empréstimo, com Edivaldo talvez não tenha sido diferente. Talvez ele suportou o tempo que conseguiu, mas não resistiu e foi dessa para melhor, ou seja, ou morreu, ou deu um jeito de dar o telefone de outros trouxas para não ser incomodado. Ou ainda ele pode ser um fantasma que, para baratear os custos, deu um número no mundo terreno para que as pessoas jurídicas pudessem manter contato com ele sem gastar com interurbano para o Além, que suponho que as tarifas sejam pela hora da morte. Acho que nunca saberemos, mas é aí que mora a graça. Mas se por um acaso vocês encontrarem o Edivaldo por aí, falem com ele para ele pagar logo essas contas, por favor. Eu e minhas sonecas vespertinas agradeceremos se não formos mais incomodados.

Um comentário:

Susan Barbosa disse...

Hahahahahaha, foooda.
Esses fantasmas 171s são os piores!

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