16 de fevereiro de 2016

Porque ODEIO O Vídeo Sobre "Consciência Humana" do Morgan Freeman



Fala sério! Eu li!
 
Apesar de ficar calado a respeito de algumas discussões sobre racismo que pipocaram nas últimas semanas, eu tenho opiniões a respeito dessas últimas polêmicas, mas não o fiz porque muitas pessoas tratam o "discutir racismo" e outras discussões como um Fla x Flu, sem problematizar (tem gente que range os dentes ao ver essa palavra!) o que realmente está em jogo. Infelizmente isso acontece por alguns fatores, mas os mais fortes motivos são a completa ignorância sobre "assuntos espinhosos" (como o racismo, direitos ao homossexuais, aborto, legalização da maconha etc etc etc) e a necessidade ególatra de mostrar que entende de qualquer assunto e que aquilo é o certo - mesmo que não entenda absolutamente nada sobre o que está sendo discutido -. Por isso me restringi a fazer observações sobre esses acontecimentos a quem pedia minha opinião e, mais do que isso, por mais que algumas dessas pessoas tenham ideias diferentes das minhas, essas pessoas conseguem argumentar sobre o porquê pensam diferente de mim, ao invés de soltar frases feitas e grosserias. E uma das armas mais usadas por grande parte dessa categoria de pessoas que usam e abusam de frases de efeito e grosseria são alguns virais da internet, sejam eles bordões, frases de efeito, gifs, memes ou vídeos (já que argumentar, ou ainda argumentar a ponto de fazer sentido é pedir demais). E um dos que mais odeio é quando usam o fatídico vídeo em que o ator Morgan Freeman fala de "consciência humana".
Vejam bem, na minha opinião pessoal, acho o Morgan Freeman um grande ator, um dos meus prediletos, inclusive. Um sujeito que interpretou um presidente americano (antes do Obama ser presidente) e deus (rompendo com aquela idealização do deus da tradição ocidental ser uma figura caucasiana, barbuda, de bata e que vive lá no céu) para mim pode ser chamado carinhosamente de "exterminador de paradigmas". Mas até essas pessoas, mesmo que sem querer,  acabam em algum momento causando um "desserviço", mesmo que a intenção seja outra completamente diferente. E esse vídeo foi sim, um desserviço. Melhor, não foi, acabou se tornando um. Explico: claro, acredito piamente que a intenção do Morgan Freeman foi lembrar que, antes de sermos negros, brancos, amarelos, somos humanos, por isso ele chega a falar que é ridículo comemorar o Mês da Consciência Negra (que nos EUA é em fevereiro). E tenho certeza absoluta que se trata de um discurso para que todos nós lembremos que o caráter e a capacidade de uma pessoa não podem ser julgadas pela cor de sua pele, pela sua origem. Até mesmo quando ele responde ao repórter que a solução seria não discutir sobre o racismo, é um alerta de que temos que buscar o que nos aproxima, não o que nos afasta. É um discurso humanista, e eu não só entendo como concordo com ele, mas até certo ponto.
E quando falo que concordo com a fala dele "até certo ponto" curiosamente não é porque discordo do que ele falou, mas discordo do uso que fazem do que ele falou. Pois, curiosamente, vejo esse vídeo sendo postado por dois tipos de pessoas: um tipo é a galera do "deixa disso", que viu que a discussão virou um Fla x Flu e está de saco cheio de ver insanidades de ambos os lados, e usam esse vídeo para mostrar justamente a visão humanista desse vídeo. O outro tipo é justamente o tipo de pessoa que sai destilando ódio internet afora e quando se mete numa  discussão sobre racismo, coloca esse vídeo no meio da discussão para mostrar que "um negro importante" só o é importante porque "não perde tempo" discutindo sobre o racismo, até porque, racismo não existe para essas pessoas. O que existe para elas é uma vitimização por parte dos negros (e homossexuais, pobres, nordestinos...).
Perceberam o quanto é grave? Não? Vamos por partes.
Primeiro, é sobre a ideia que temos sobre a discriminação em geral, seja qual for. Acreditamos que a discriminação é apenas a agressão verbal ou física, mas não é. Tanto na sociedade brasileira quanto na sociedade americana (já que estamos falando de uma personalidade americana) o racismo é cruel e tem vasto repertório: ele é enraizado em ambas as sociedades, e se manifesta em pequenas atitudes cotidianas que raramente passam desapercebidas (como a questão do cabelo crespo ser "cabelo ruim", por exemplo) e também se manifesta institucionalmente (as estatísticas sobre anos de estudo, expectativa de vida, salário médio, taxa de homicídio e outras estatísticas sobre esses ponto aqui e lá falam por si só). A diferença entre lá e cá é que aqui a discriminação é velada, mascarada com o mito de "democracia racial" (traduzida naquela detestável frase "eu até tenho um amigo negro/pobre/homossexual/favelado") e lá as coisas são um pouco mais às claras. Então, iludidos por esse mito, achamos que "esse papo de racismo" é coisa que surgiu com as cotas, ou que foi plantado por esquerdistas treinados em Cuba, enfim, podemos escolher a teoria da conspiração que é mais cômoda na hora da discussão. E isso nos leva ao segundo ponto, que é a inversão do racismo, ou seja, a força sobre-humana e suja que fazem para transformar a vítima de discriminação em réu, como se o verdadeiro crime fosse falar que determinada atitude é ofensiva e a pessoa que ofende apela para a "liberdade de expressão" (e essas pessoas estão mais perdidas do que o Alexandre Pires quando ele canta "o que vou fazer com essa tal liberdade...". Alexandre pelo menos não sabe o que fazer, já essas pessoas acabam fazendo merda mesmo).
Outro ponto importante é saber interpretar (PROBLEMATIZAR!) as coisas. Pode parecer fácil, mas acreditem, muitas pessoas tem dificuldade em fazer isso, seja porque não sabem interpretar informações, ou porque estão cegas de ódio, ou os dois. Como disse, mesmo que o racismo "à brasileira" e o racismo "made in USA" sejam idênticos em muitos pontos, há também diferenças. Posso estar errado (e só o tempo vai me dizer se estou ou não), mas a hora da luta por direitos de diversos grupos marginalizados da sociedade brasileira é agora. Estamos meio que começando o nosso "movimento pelos direitos civis" (mesmo que a luta seja bem mais antiga, mas nos últimos anos ela deu um salto), enquanto o movimento americano ganhou forma e força nos anos 1960 e agora ele quer mais, porque mesmo com esses anos todos lutando, mesmo com muitas conquistas, a exclusão na sociedade americana ainda é cruel, ao contrário do que a ideia de "terra das oportunidades" tenta vender ao mundo. Ela ainda não é perfeita, mas só se tornou a "terra das oportunidades" porque esses grupos levantaram suas vozes e lutaram por uma sociedade que oferecesse mais oportunidades a quem não tinha muitas. Talvez, por isso, a fala de Morgan Freeman, que deve ter sofrido e batalhado muito para alcançar tal patamar. Ele não ignorou suas lutas, mas sabe que a luta não é só dos negros pelos negros, e sim de todos para todos.
Muitos dizem que o mundo está chato porque não se pode fazer piada com nada, que as pessoas se sentem ofendidas facilmente. Mentira, o mundo está chato para essas pessoas porque quem era a piada enfim consegue falar para o mundo que não há a menor graça. Ainda bem que o mundo está chato. E que fique ainda mais!

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P.s.1 : Antes de postar o vídeo do Morgan Freeman no meio de uma discussão sobre racismo para tentar justificar o injustificável, procure saber sobre a posição dele sobre essa onda de assassinatos de negros que estavam sob custódia da polícia americana nos últimos anos, por exemplo. Não é o tipo de opinião de uma pessoa que acha que está tudo bem. Quer link? Então toma:


P.s. 2:O mais engraçado é que muitos dos que compartilham esse vídeo com mensagem tão humanista são os mesmos que destilam seu ódio ao diferente por aí. E vem com o papo de "consciência humana" quando já compararam algum negro a um macaco, ou seja, contestam a humanidade de uma pessoa sem pudor, fora outras besteiras sobre outros grupos (mulheres, homossexuais, pobres...). Mas depois compartilham no Facebook uma foto com uma criança rezando e com uma oração escrita que fica tudo certo. Não sou de acreditar num deus punitivo, porque deus é amor, acima de tudo , mas ele tá vendo isso daí. Se você acredita de fato nele, ao invés de ficar fazendo pose de "pessoa de bem" é melhor rever seus conceitos!  

2 de janeiro de 2016

Um Fantasma Chamado Edivaldo



Tem horas que penso que eu acabo me expondo muito por aqui, pois como vocês já devem ter percebido, grande parte do conteúdo do blog é autobiográfico. E essa exposição, na maioria das vezes, beira ao ridículo, porque tem situações que acontecem comigo (cotidianamente!) , que, sinceramente, beiram ao fantasioso. Mas por outro lado é meio tarde para eu parar de contar alguns "causos" que acontecem comigo, ainda mais porque vejo que quem visita o blog vem justamente ler essas histórias (as estatísticas me dizem isso).
Pois bem: acho que nunca contei para vocês, mas minha casa sofre com a presença de um fantasma. E o fantasma tem nome, CPF, número de telefone e pelo que percebi, tem também nome sujo na praça.
Edivaldo é presença constante aqui em casa desde que nos mudamos para cá, há quase doze anos. Não sei se o trouxemos numa das gavetas dos armários ou se ele já estava por aqui, mas o que importa é que temos conhecimento da existência de Edivaldo desde que nos mudamos para cá. E ele é discreto. Não nos assusta, não fica arrastando correntes, não pega no nosso pé enquanto dormimos; só lembramos de Edivaldo quando o telefone toca.
Muitos procuram Edivaldo: bancos, principalmente. Eles ligam ou para cobrar algo dele ou para oferecer algum empréstimo com "prestações a perder de vista e juros baixos". É terrível. Só quando telefonam para cá procurando por Edivaldo que sentimos que estamos num "thriller" de terror, onde o vilão é uma figura que atende pelo nome de "operador de telemarketing".
Já tentamos de tudo para afastar Edivaldo e seus algozes de nós: tentamos falar educadamente que não há nenhum Edivaldo morando aqui, já xingamos quem ligava o procurando, deixamos de atender ligações, por medo de que estivessem procurando Edivaldo (medo nada, falta de paciência mesmo), até mesmo num ato desesperador, mas corajoso, trocamos de número de telefone (duas vezes!), para que esse filme B de terror acabasse. Mas tudo foi em vão.
E o sentimento que eu, particularmente, tenho por Edivaldo mudou ao longo do tempo: de ódio mortal a compreensão. Mas alto lá, compreender não é aceitar, ainda mais quando ligam para minha casa justamente em horas em que estou concentrado em algo ou mesmo tirando aquela soneca gostosa. Mas nesses anos todos convivendo com Edivaldo (ou algo parecido com isso), me pus no lugar dele diversas vezes, e isso me fez ficar um tanto resignado com a situação. Vejam bem, se eu, que faço um esforço monstruoso para não me endividar e fico pra morrer toda vez que bancos me ligam sedentos em me disponibilizar um empréstimo, com Edivaldo talvez não tenha sido diferente. Talvez ele suportou o tempo que conseguiu, mas não resistiu e foi dessa para melhor, ou seja, ou morreu, ou deu um jeito de dar o telefone de outros trouxas para não ser incomodado. Ou ainda ele pode ser um fantasma que, para baratear os custos, deu um número no mundo terreno para que as pessoas jurídicas pudessem manter contato com ele sem gastar com interurbano para o Além, que suponho que as tarifas sejam pela hora da morte. Acho que nunca saberemos, mas é aí que mora a graça. Mas se por um acaso vocês encontrarem o Edivaldo por aí, falem com ele para ele pagar logo essas contas, por favor. Eu e minhas sonecas vespertinas agradeceremos se não formos mais incomodados.

19 de dezembro de 2015

Seria Um "Samba Metal"?




Fiquei confuso e curioso.
Aquele senhor com fone que sentou do meu lado devia estar escutando algo bem legal. Por pouco, não pedi a ele para compartilhar comigo o que ele escutava, porque o gestual dele era, pra mim, "bastante peculiar", para ficarmos numa definição que não pareça que eu estava julgando aquele senhor.
Ele estava lá na dele, escutando o seu som, sossegado ("sossegado" é maneira de falar, podemos falar que ele estava era amarradão no que escutava), mas o jeito dele em curtir a música era muito engraçado. Ele batucava em sua coxa direita com uma cadência de quem estava escutando samba, parecendo que tocava um pandeiro imaginário, mas batucava com uma força de que estava escutando hardcore ou uma corrente do metal. Aí era inevitável que eu com minha cabeça de vento começasse a me perguntar: Primeiro, afinal, o que este senhor está escutando? Segundo, será que ele é de uma dissidência da Velha Guarda da Portela, que seria mais punk? Ou ainda, será que eu estaria assistindo a gênese de um novo estilo musical, bem do meu lado e num ônibus?
Tantas perguntas que me passavam pela cabeça e elas ainda deram origem a uma leve preocupação: como será que eu "batuco" quando estou envolvido com as músicas do meu celular quando estou num ônibus, por exemplo? Acho que não encontrarei respostas para nenhuma dessas perguntas. Mas fico feliz em ver que a música, assim como biscoito Globo, pode ser o maior passatempo da sua viagem no transporte público. Mas usando fone, hein, pessoal!

14 de dezembro de 2015

Carta Aberta para Soraya, II



Rio, 10 de dezembro de 2015.

Soraya, escrevo essa carta uns três ou quatro dias antes de, enfim, oficializar nosso noivado. Logo, confesso que ainda não sei quando exatamente ou como te fiz esse convite rumo a viagem de ter paciência de me aguentar o resto da vida ao seu lado, mas uma coisa é certa, você é mulher da minha vida.
Como eu já te disse, demorei para perceber que você era essa pessoa. Mesmo que eu sempre tenha nutrido enorme apreço por sua amizade desde que nos conhecemos, nunca imaginaria que hoje estaríamos pensando em casamento. Mas o tempo é sábio: ele dificilmente revela as coisas de imediato. É preciso, muitas vezes, ter paciência para saber o que nos espera. E tive paciência em esperar "no que isso ia dar". Mas só tive paciência porque sua dedicação, seu carinho, seu respeito por mim foram de outro mundo. De nada adiantaria nós dois embarcarmos em um relacionamento sem, necessariamente, querer estar nele. E confesso que durante certo tempo era você que mostrava que "queria mais" do que eu, já que eu, até certa época, "só" queria. Só depois daquele episódio em que eu te pedi um tempo e quase sumi da sua vida (sim, juro com todas as forças, a minha motivação para isso foi única e exclusivamente uma "síndrome de vira-latas", pois eu achava que eu era "pouco" para você, veja só) e que você, mesmo estando muito chateada comigo, me mostrou que não era dessa forma, ou seja, de que você se sentia amada, protegida, envaidecida ao meu lado. Que não tinha o porquê de eu achar que eu era "pouco" para você. Mesmo me dando uma bronca homérica, você deu uma demonstração de maturidade que vi poucas vezes na minha vida. Se antes desse desentendimento eu já te admirava imensamente, depois dele eu vi que, se eu me acho, sem falsa modéstia, uma pessoa extraordinária (mais "ordinária" do que "extra", mas não é isso que estamos discutindo aqui), que eu também tinha o direito de me cercar de pessoas extraordinárias, a começar por você.
Poucas vezes na vida encontrei uma pessoa que me completasse tanto. Talvez um ou dois dos meus melhores amigos cheguem nesse nível. Mas, mesmo sendo simpatizante da causa LGBT, eles não fazem meu estilo pelo fato de eu ser heterossexual e porque também acho você bem mais bonita (e cada vez mais bonita, diga-se de passagem!) e bem mais cheirosa do que eles. Você é mais do que o amor da minha vida, você é minha amiga, conselheira, professora (já aprendi várias coisas de Biologia com você que fico igual papagaio repetindo por aí quando tenho oportunidade), até mesmo minha técnica em eletrônica, contadora e gerente de banco particular. Não é pouca coisa. E espero que eu seja uma pessoa que te completa tanto como você me completa. Até porque, vivemos em tempos em que as pessoas estão mais preocupadas em fazer de seus relacionamentos mais de um status nas redes sociais do que uma oportunidade em crescer como pessoa ou de compartilhar (veja bem, compartilhar não apenas nas redes sociais, e sim pessoalmente!) coisas boas. De nada adianta eu propagar aos quatro cantos que te amo se isso serve mais como uma afirmação para os outros do que para mim e para a outra pessoa que me interessa. E não preciso, nem me sinto por você pressionado, a fazer esse tipo de sandice dia sim, o outro também. Mas essa carta aberta é uma "sandice do bem", que só fiz porque achava extremamente necessário. Não posso tratar meu amor por você como pingente, como muitos fazem, pois ele é joia preciosa que fica guardada aqui no meu coração e que só mostro em ocasiões especiais como essa.
E admito que não sou um primor em expressar meus sentimentos com gestos ou atitudes, ou seja, sem palavras, e que preciso muito delas para que as pessoas saibam o que penso, o que sinto. Mas minha timidez me trava quando preciso expressar em palavras faladas essas coisas. Por isso sempre recorri às palavras escritas, porque acho que me dou melhor com elas. E hoje não está sendo diferente, pois provavelmente, no máximo, te perguntei se você quer casar comigo, mesmo tendo pensado nos discursos mais mirabolantes e nas maneiras mais incríveis de te fazer esse pedido nos últimos meses. Sim, MESES. A única coisa que eu estava esperando ao longo desse ano todo era te pedir em casamento no dia do seu aniversário (ou bem próximo dele). Mas até agora não sei que palavras usar para fazer isso. Então se você achar o pedido meio tímido, espero que esta carta equilibre um pouco as coisas.
Mesmo sem ser um homem religioso, agradeço todo dia ao levantar e todo dia antes de dormir por ter o privilégio de você ter me escolhido para compartilhar essa nova caminhada em nossas vidas. E, para terminar, acho muito clichê terminar essa carta com um "eu te amo". Queria terminar de forma triunfal, de maneira que você visse fogos de artifício ao terminá-la, de tão bem fechada que ela foi. Mas quem gosta de ficar inventando toda hora é músico experimental, cientista maluco, cineasta independente ou esses zagueiros dessa geração 7 a 1 que ficam mais preocupados em "postar foto no Insta" do que jogar a bola pro mato e fazer cara feia pra atacante abusado. Sou apenas um cara que quis expressar sua felicidade por ter certeza que encontrou a pessoa certa para compartilhar essa caminhada que se inicia agora, chamada casamento. Então, Soraya, minha querida, EU TE AMO. MUITO. MAIS DO QUE IMAGINO.
Um beijo (de cinema, para terminar com chave de ouro!).

20 de novembro de 2015

O Orgulho Negro em Canções

É inegável a influência negra na música contemporânea. Se formos parar para pensar e analisarmos os ritmos musicais de mais visibilidade durante o século XX e agora no século XXI, é impossível não contar as histórias de cada ritmo desses sem ver que todos tem em comum um pedaço de seu DNA negro.
Então pensei, para fugir um pouco de lugar comum de escrever mais um texto sobre o Dia da Consciência Negra (veja bem, não porque enjoei ou não ache necessário - muito pelo contrário! -, mas é para mudar um pouco a abordagem), resolvi fazer uma lista com músicas que gosto e que tem como temática a luta da população negra por mais direitos -  não só no Brasil, mas no mundo. A partir de uma lista que tinha entre 10 a 15 músicas que lembrei de cara, decidi fazer um pequeno texto sobre cinco delas. As outras que sobraram da lista relacionei com as cinco, para que vocês também tenham a curiosidade de conhecê-las.
Desculpem-me se deixei fora dessa lista algumas músicas. Como disse, foi uma seleção rápida e pessoal. Opiniões são bem-vindas!

Vamos à lista!

Stevie Wonder - "Black Man"
 


Belíssima canção do Stevie Wonder em que a gente vê o quanto Brasil e Estados Unidos são, em vários pontos, bem parecidos. Stevie Wonder, ao mesmo tempo em que exalta a diversidade étnica americana, falando de grandes feitos de negros, indígenas, brancos, orientais e latinos, no refrão deixa bem claro que a liberdade pela qual os americanos chegam a dar suas vidas seja algo que chegue a todos, independentemente de sua origem. Em tempos em que estamos cada vez mais buscando o que nos distancia de outros que são culturalmente diferentes, essa canção cai como uma luva para aprendermos com aqueles que taxamos de "diferentes".

Outras músicas relacionadas: "Soldier", Erykah Badu e "Redemption Song", Bob Marley.

Racionais Mc's - Negro Drama



Essa música é muito especial para mim, pois não há uma única vez que eu a escuto e que não passa um filme na minha cabeça. Ela resume, em alguns minutos e ao mesmo tempo, todos os obstáculos, perigos, orgulhos, vitórias (e um bocado de tiração de onda, claro) que um negro pode ter ao longo de sua vida. O texto sobre ela nessa lista que fiz é sucinto de propósito; é uma música que merece um texto à parte, por todo o contexto histórico da época em que foi lançada, por sua narrativa... Enfim. Já deu para perceber o quanto a música é representativa para mim e para muitos.


Kendrick Lamar - Alright



Uma das músicas do contundente álbum "To Pimp a Butterfly", do Kendrick Lamar, que expõe com muita clareza as desigualdades e a tensão racial da sociedade americana em pleno século XXI. O refrão dessa música inclusive virou palavras de ordem em muitos dos protestos contra a violência policial que tiveram por lá no último ano. Seu pré-refrão traduz todas essas tensões que ainda estão presentes na sociedade americana (e sinto bastante similaridade com o caso brasileiro), mas seu refrão mostra que, apesar de toda essa situação, tudo acabará bem.

Outras músicas relacionadas: O último álbum do Kendrick Lamar, "To Pimp a Butterfly", "África Brasil", Jorge Ben, "Boa Esperança", Emicida

Aláfia - Preto Cismado



Uma das inúmeras coisas legais que surgiram na música brasileira nos últimos anos, a banda Aláfia nessa música expõe uma das facetas mais cruéis do preconceito racial no Brasil: o "racismo velado" - e também que não estamos nem um pouco dispostos a tolerar os que acham ofensas algo "politicamente incorreto". Acho essa música uma síntese muito feliz (e cheia de suingue!) do momento que os afrodescendentes vem tendo de uns anos para cá aqui no Brasil, sendo cada vez mais combativos e orgulhosos, e por isso o destaque dela nessa lista.


O Rappa - Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro



É uma triste relação entre violência policial, desigualdade social e racismo. Comparar um camburão com um navio negreiro não é exagero, infelizmente. Num país que tem uma polícia que muito mata (e também muito morre) e índices assustadores se darmos maior atenção aos que se referem à população afrodescendente no que tange a índices sobre violência, expectativa de vida, anos de estudo, entre outros. Ou seja, é o retrato de que passados mais de 120 anos da abolição da escravatura, a população afrodescendente ainda tem muitos obstáculos a vencer. Vale a reflexão.

Outras músicas relacionadas: "Cê Lá Faz Ideia", Emicida
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